No passo do Ororubá
O diálogo entre infância e velhice se entrecruzam nas práticas socioculturais do povo Xukuru do Ororubá. O Toré e a roda de coco são espaços onde sempre é visível a presença das crianças no diálogo com os mais velhos, no intuito de manter a identidade étnica pelos elementos culturais vivos. Dos rituais e festividades do povo nativo pernambucano, moradores de Pesqueira, a Festa das Crianças é o meio onde fica mais visível a presença dos mais novos. Pensado especificamente para a interação deles com os demais parentes indígenas, a festa é uma forma de manter acesa nos pequeninos a chama estruturante do povo: as danças e o diálogo com a natureza. Sabedoria, práticas ancestrais e modernidade são vistas entre as crianças, que ressignificam a cada dia sua identidade, sem deixar de ser indígenas






O primeiro agente de socialização é a família, para os sociólogos. No povo Xukuru do Ororubá, a formação de núcleos familiares restritos -- pai, mãe e filhos -- não impede que outro atores de socialização faça o papel fundamental de educação. A coletividade, entendida como agente institucionalizado, tem atribuições no processo de inserir as crianças no meio socialmente compartilhado dos indígenas. As crianças são deixadas à vontade, livres. A expectativa é de que, pela batida do jupago -- instrumento feito de madeira que marca a batida mais forte do pé --, os mais novos agucem a curiosidade e se aproximem do Toré, que é puxado pelos adultos. Não existe limite etário de participação. Os pequeninos são inseridos no meio comunal das práticas para se acostumarem com a sonoridade e não estranharem as diferentes pessoas que se aglomeram.






Pé no chão, poeira que sobe. Esse é o contexto da dança circular anti-horária: o Toré. O mesmo ritual e elemento diferenciador da maioria dos povos indígenas do Nordeste foi extensivamente reprimido na década de 80. Ressurgidos, organizados e mobilizados nos anos 1990, o esforço do Cacique Xicão -- Madaru, para os Xukuru, que se tornou Encantado de Luz -- estava em torno de garantir a prática da dança entre os seus pares. Depois da morte do cacique, assassinado a mando de fazendeiros interessados no território indígena, as lideranças sedimentaram as relações e, em 2018, a barretina -- chapéu de palha do povo -- pôde balançar solta na cabeça dos pequeninos. Elem têm o direito do exercício da cultura garantido. As crianças são as forças que nascem de uma longa e árdua luta do povo Xukuru do Ororubá pela preservação do Toré.






Dispersos eles não ficam. O espírito da coletividade é o mais identificável nas relações que as crianças estabelecem umas com as outras. Entender a importância do outro no processo de reafirmação da identidade é fundamental para os novatos. É nesse espaço em que os vínculos de reciprocidade, companheirismo e ajuda se amontoam formando o que o povo Xukuru do Ororubá é: receptivos 'por natureza'. As relações que os pequenos índios estabelecem é a mesma relação que o território manifesta. Divido em Agreste, Serra e Ribeira, o Território Indígena mantem a compensação das necessidades do povo ao garantir os recursos necessários em ambas as regiões. Da mesma forma que a divisão do território se comunica, os nativos mantêm os vínculos em cima dessa terra onde vivem, garantindo a harmoniosidade entre natureza e seres humanos.






Bons selvagens. Primitivos. Isolados. Esse é o discurso de 1500, reforçado na atualidade para negar o processo histórico de modificações e ressignificações que os indígenas passaram. Conectados com o mundo atual, as crianças Xukuru sabem seu lugar no mundo e utilizam as ferramentas digitais para dar visibilidade aos seus. Documentar e registrar os momentos do povo é uma das iniciativas e estratégias de resistência para os índios se mantêm vivos simbólica e culturalmente. Pegar no celular e fotografar é uma forma deles serem protagonistas dos seus próprios registros e história. Dar o play na gravação é o modo como os pequenos mostram que desde cedo se desvincularam da tutela. Eles querem falar por si próprio, construir suas narrativas a partir do olhar de quem vive a realidade do povo.