"Nós somos Nawa": o povo indígena do interior do Acre que não foi extinto; foi silenciado
- Tarisson Nawa
- 18 de set. de 2021
- 19 min de leitura
Atualizado: 1 de nov. de 2021

Já era final da Assembleia do povo Inu Kuî (Nukini), em 2000, na Aldeia República, quando Rosenilda (Rose) e Lindomar Padilha foram convidados para visitar a Serra do Divisor, um dos pontos turísticos do Acre. Os dois indigenistas, que trabalham no Conselho Indigenista Missionário (CIMI) - organização vinculada à igreja católica que apoia o protagonismo dos povo indígenas - estavam animados com a participação e discussão política que aconteceu durantes todos os dias numa das aldeias mais ao extremo oeste do Brasil, já na divisa com o Peru. Entre o som alto do motor sob o rio Moa, Rose e Lindomar voltaram do passeio com a liderança Paulo Nukini - que os haviam convidado - e resolveram parar, a pedido da liderança Inu Kuî, na casa de Dona Chica do Celso (Francisca Nazaré da Costa) - uma senhora de 64 anos, cabelos grisalhos, rosto com marcas de anos de trabalho sob o sol da roça e de esforços com a produção da borracha.

Descidos na "colocação" 7 de setembro - hoje aldeia - do lado direito do rio moa e dentro do Parque Nacional da Serra do Divisor (PNSD), a bajola (barco) foi amarrada para não ser levada pelas aguas barrentas do rio. No caminho para chegar à casa de Dona Chica, uma supressa para a indigenista do CIMI: vários túmulos eram visíveis no quintal. A receptividade do ribeirinho é regra e logo dona Chica convidou os indigenistas e a liderança Inu Kuî para entrar; ofereceu-lhes café e então iniciaram um diálogo. Sem perda de oportunidade, a indigenista do Cimi perguntou:
- Dona Chica, o que significa essas sepulturas no terreiro da sua casa?
- Ah, isso é coisa de índio! - exclamou Dona Chica.
- E então quer dizer que a senhora é indígena? De que povo a senhora é? - voltou a questionar a indigenista
- Minha filha, eu nós somos Nawa!
Os Nawa não foram vencidos, mas vivenciaram várias violências, ora da bala, fogo e doenças, ora da caneta. O povo foi documentado como "extinto" quando fugiu do seu território ancestral em Cruzeiro do Sul - Acre. De acordo com laudo antropológico de 2002, escrito por Delvair Montagner, apontava que em 1893 já não existiam mais Nawa em Cruzeiro do Sul, segundo documentos de criação da cidade. Os Nawa buscaram a floresta para permanecer vivos e nessa busca, a narrativa histórica conta que o povo "abandonou a localidade [onde habitavam], a partir de 1870, rumando para o Peru pelos altos rios, em consequência de terrível epidemia", como aponta o Diário Oficial do Município de Cruzeiro do Sul, publicado em 2016.
A posição da anciã do povo Nawa, Chica do Celso, hoje com 85 anos, se contrapõe aos documentos históricos de criação de Cruzeiro do Sul, no Acre. O povo Nawa lutou para sobreviver no Vale do Juruá e as trajetórias individuais de lideranças e mais velhos do povo Nawa demonstram anos de adaptação na floresta frente à imposição de modelos de produção econômico local, sobretudo da empresa seringalista na região, que cooptou os indígenas Nawa tornando-os compulsoriamente em trabalhadores da seringa para atender ao mercado global da borracha. Os Nawa lutam hoje pelo reconhecimento étnico negado a eles e escancaram a dificuldade de garantir o bem-viver dos indígenas e seu território ancestral.
Personagens roubados, memórias distorcidas

Cruzeiro do Sul foi fundada no discurso de "abandono" dos indígenas Nawa da região onde hoje está localizada a segunda maior cidade do Acre. Cruzeiro do Sul, conhecida como "terra dos Náua" se apropriou da identidade étnica de um povo. As cidades brasileiras foram fundadas na morte de muitos povos, e o que fica é a tentativa fajuta de respeito à memoria indígena colocando o nome do povo nos objetos e lugares. Esse é o caso de Boa Vista, em Roraima, onde seu povo, mesmo não indígena, se auto intitula "macuxi"; o município de Maués, no Amazonas, por exemplo, leva o nome de um povo que habita a região: os Sateré-Mawé. Cruzeiro do Sul não foge à regra e desde a década de 1930 já utilizava o nome do povo Nawa como forma de apropriação indevida da identidade indígena: na cidade tinha uma difusora de rádio chamada a Voz dos Náuas; já houve time de futebol: Náua Futebol Clube; já houve marca de guaraná: Guaraná Nauense; hoje ainda tem um teatro e ponto turístico da cidade: o Teatro dos Náuas e o nome indígena vai até pra mesa do acreano com o Café Náuas. Enquanto isso, a Terra Indígena Nawa continua sem demarcação há 21 anos e o território carece de serviços públicos de qualidade.

Mas onde estavam os Nawa? Fugidos? O povo Nawa se localiza hoje na margem direita do Rio Môa, onde faz fronteira com o Território Indígena Nukini, no extremo oeste do país, numa região de formação de relevo montanhosa – conhecida como Serra do Divisor ou Serra da Contamana. A Terra Indígena Nawa encontra-se em identificação pela Portaria 1.071 de 19 de novembro de 2003, com um território de 83.218 hectares. A população é contabilizada em 363 indígenas, pelos dados da Secretaria do Estado do Meio Ambiente – SEMA/Acre (2018). Os grupos familiares estão localizados nas margens dos igarapés Venâncio, Tapado, Jezumira e Recreio, afluentes do Rio Môa, nas comunidades homônimas.

O povo Nawa sobreviveu a partir de duas indígenas: Mariruni (Mariana) e Chicaca (Francisca Borges de Paiva). Hoje, a foto da primeira estampa lugares de memória do povo Nawa: o teatro dos Náuas é um desses lugares.
Maria Solange, bisneta de Mariruni, conta que sua bisavó foi caçada por volta dos 12 anos. "Ana, como meu avô contava, foi caçada e ele contava que ao ser capturada ela deu uma abucanhada no tuntum (pescoço) de quem capturou ela". O relato da indígena se soma ao da liderança Lucila Moreira Nawa. A liderança feminina conta que a partir de Mariana foram geradas as histórias de fundação do povo. "Nosso povo veio de mulher; de uma mulher que foi transformada em anta e passou 100 anos para se assumir na forma humana". O relato de Lucila se aproxima a história da cidade que afirma o desaparecimento do povo Nawa desde 1870, isto é, há mais de 150 anos. De acordo com a liderança, o povo estava em silêncio porque estava ainda na forma de anta e em transformação.
Mariana casou-se com Jose Peba, seringueiro e cearense que teve oito filhos com Mariana. Os filhos carregam até hoje o apelido do ancestral - Peba - que veio de uma colocação de seringa homônima ao apelido. Os Peba de Mâncio Lima - a maioria já idosos - são as ramas vindas do tronco Nawa: não a "última", e sim a primeira mulher Nawa, Mariana.
A borracha Nawa e as dificuldades do período da seringa

Quem vê Railson Nawa hoje, já afetado pela idade e anos de trabalho, não tem noção das habilidades da liderança. No cacicado há 20 anos, a liderança do povo Nawa já foi tocador, caçador, carpinteiro, serrador, agricultor, barqueiro, entre tantas outras atividades que buscou desenvolver para continuar sobrevivendo na floresta. Apesar de hoje ser assessor de assuntos indígenas pela Prefeitura de Mâncio Lima - Acre, o que mais marca na memória de vida do cacique é uma das funções que mais desenvolveu durante a sua vida: a de seringueiro.
Railson cresceu no contexto do segundo boom da borracha no Acre. A liderança nasceu em 1973, e tem memórias desde seu pai, com quem aprendeu o corte da seringa. "Tirei muito caucho ainda na mata e depois a gente foi trabalhar na agricultura", conta Railson ao falar do contexto social no qual nasceu. A liderança do Novo Recreio, aldeia na qual mora hoje, conta as relações que existiam entre patrão e empregado. "Eles [os indígenas seringueiros] tinham muito medo dos patrão. Eles tinham muito medo porque os patrão era meio rígido. Eles [patrão] diziam sai amanhã sai depois e os caras [indígenas] já tinham medo. A gente já tinha os exemplos que eles mandavam até matar. Então a gente vivia na ditadura mesmo".
Apesar do relato de violência do cacique durante o período da borracha, o histórico massacres é anterior a vivência da liderança. As histórias de morte ainda hoje são frequentes nas memórias do Nawa. A neta de Mariruni - Chica do Celso conta as atrocidades que seus parentes passaram para continuar vivos:
"Mataram muito dos nossos parentes para gente chegar o que somos hoje" - Chica do Celso

O relato da anciã se soma ao de outra indígena Nawa: Chica do Nilton. A indígena detentora dos conhecimento de cerâmica do povo conta que para não morrerem, os indígenas se dispersaram e que os que habitam o Novo Recreio, na Terra Indígena Nawa, são uma das grandes famílias que sobreviveram: "Meu filho o que eu ouço os outros falar é que, quando houve o tiroteio, né, um bocado dos Nawa foram pro 'Estirão dos Náua', um bocado veio pro Rio Azul e do rio Azul foram pra Serra do Moa e voltaram e foram tudo pro Novo Recreio. E ficou espalhado por aqui e por acolá".
A migração como forma de sobrevivência
A partir dos relatos dos indígenas é frequente ouvir que a migração foi uma estratégia usada para sobreviver aos massacres e perdas populacionais. Railson, cacique do povo Nawa, conta que seu povo vivia no "Estirão dos Nawa". O lugar foi nomeado em 1854 devido ao fato de haver várias e extensas malocas (tabas) Nawa com uma população muito grande de indígenas. O Estirão dos Nawa é considerado um dos lugares onde havia a maloca ancestral do povo. Segundo a liderança, seu povo fugiu para dentro da mata, correndo da perseguição e do fogo que havia destruído os antigos malocões.

A presença Nawa onde hoje é reivindicado o território ancestral, em Mâncio Lima, deve-se a aparecimento do povo, vindo da floresta, nesta localidade? Na verdade, a presença Nawa no Novo Recreio acontece a partir da ancestral Mariana. Mariana casou-se com José Peba e o casal subiu o rio moa para construir morada naquele lugar: às margens do igarapé novo recreio, afluente do rio Moa.
Mariana foi capturada ainda nova e segundo Castelo Branco Sobrinho, em texto publicado em 1930, Mariana cedeu uma entrevista ao Padre Tastevin dizendo que a população indígena antes da fundação de Cruzeiro do Sul era na verdade do povo Capanawa (Kapanawa).
Mariana teve 8 filhos, todos já falecidos, entretanto sua origem deixou os netos para contar a história. Francisco Ferreira da Costa (Chico Peba) é um dos netos vivo. O indígena que hoje vive no Estirão do São Domingo (faixa de terra em linha reta no bairro rural de São Domingo, em Mâncio Lima) conta uma das várias sagas pelas quais passou na época da seringa. O indígena nasceu no segundo ciclo da borracha e trabalhou por muito anos com o corte da seringa. Migrou para várias colocações antes de procurar, em 1983, a zona urbana como saída para sobreviver.

Chico Peba morou nas colocações Três Unidos, Nova Lição, Barro Vermelho, Boa Vista e Paraná Pentecostes. A cada ano, dependendo da relação com os patrões, o indígena - neto de mariana - mudava de colocação. A última migração aconteceu para a cidade, onde o indígena se estruturaria e viveria a velhice com o pagamento de aposentadoria.
Era só o negócio da Seringa. Fica mudando de lugar né. Passa num canto e ai o cara vai e se muda, cortar seringa. A mesma seringa que você corta aqui ai você vai pra outro canto, outra colocação, né. É de pouco tempo; era poucos anos; dois três anos, quatro, era no máximo - Nego Peba - ex-seringueiro e indígena Nawa
Maria Solange Lima da Costa, filha de Chico Peba, relembra a vida no pai no que chama de "período da seringa": "A nossas vidas eram vidas muito sofridas. Na época que nós era criança era difícil um emprego; não existia renda nenhuma através de governo essas coisas. A gente tinha que ir cedo pra roça. O que você fazia da roça e da seringa você sobrevivia. Aí então no verão meu pai cortava seringa e no inverno ia pra agricultura". A relação com o patrão seguia o tempo da natureza. Chico Peba, como conta Solange, sangrava a seringa no período de maio a setembro - período no qual o rio estava secando, no período do verão. No inverno amazônico, conhecido como o período de muita chuva e cheia do rio, os indígenas se dedicavam à agricultura. Solange conta que a família "fazia farinha pra vender algum pouquinho quando achava alguém que comprasse, até o final do inverno, e era muito ralado".

Os indígenas trabalhavam de inverno a versão, de cheia a seca do rio, sem tempo para descansar. O objetivo era garantir a vida e sobrevivência na mata. A sobrevivência estava sob o jugo do patrão da borracha. Nesse sentido, os indígenas Nawa se apropriaram do modo de vida de trabalhador da seringa para continuarem vivos.
Railson, o cacique do povo Nawa, detalha esse momento como contexto tenso nas relações entre patrão e empregado. O medo tomava de conta de muitos seringueiros; os mais afoitos enfrentavam o patrão quando as relações não eram favoráveis. "Tinha um grupo que tinha muito medo mas tinha um outro que não tinha medo não; enfrentava o patrão mesmo de cara a cara.", conta o cacique.
A vida na floresta, em condições desiguais eram escancaradas com o modo de vida desfavorável pelo qual os indígenas passaram: "na época nem dormida que preste a gente tinha. O colchão era com palha de banana, tirava o capim, brocava (cortava) e enchia o colchão para poder dormir em cima, e tudo tinha muito filhos, família grande; sofreram muito, o nosso povo, para sobreviver através dos patrão", relata Railson ao detalhar a vida na mata no período da seringa.
Chico Peba vivenciou momento de conflito com os donos do seringal. Com a chegada dos sindicatos dos trabalhadores da seringa, as leis acabaram desfavorecendo os lucros dos patrões, que cada vez mais se tornavam violentos. Em terra sem lei, patrão era quem legislava: "as colocações não eram muito boas e a gente ficava procurando outro canto melhor. Eu saí do Paraná [Pentencostes] porque lá tava em questão com os patrões, no negócio da seringa, que eles não aceitaram o 10% da renda. Tinha época que chegava cinco de seis, tudo armado, lá na minha colocação, pra tirar eu de lá. Até que eu aborreci e saí". O indígena Nawa que hoje mora com a maioria dos filhos no Estirão do São Domingo, zona rural de Mâncio Lima, buscou a saída do seringal como forma de garantir a vida. Mais próximo da cidade, garantiu melhores oportunidades de saúde e educação para filhos e netos.
Nego Beba, irmão de Chico, acrescenta as motivações que causaram a intriga. Segundo ele, já estava se tornando um "absurdo" pagar 70kg de borracha para os patrões, sem ganhar nada em troca, que era a chamada "renda". O único "benefício" era morar na colocação e poder usufruir da terra. Com a chegada do Sindicato, os indígenas pagariam somente 10% de toda produção e poderia vender o restante. Entretanto, a lei do sindicato não agradou os patrões e motivou os vários conflitos na região com os indígenas seringueiros. As intrigas, no período em que a borracha já não era mais rentável para a economia local e para os produtores seringueiros, forçaram muitas migrações de indígenas Nawa para a cidade, aumentando o contingente urbano local.

Aqueles que não foram para a cidade se voltaram para suas próprias residências e buscaram no modo de vida da agricultura sobreviver com áreas de plantio e escoando a produção para a cidade, que cada vez mais demandava alimentação com o contingente em formação. Mâncio Lima cresceu seu núcleo urbano e muitos indígenas continuaram fazendo o fluxo cidade/seringais.
Os indígenas Nawa já haviam passado por várias situações de conflito com os patrões. Apesar de achar que as tensões seriam reduzidas com a queda da produção da borracha, os indígenas foram surpreendidos com uma outro contexto crítico que ameaçava o modo de vida do povo Nawa na floresta: a criação do Parque Nacional da Serra do Divisor.
O Parque Nacional da Serra do Divisor e o segundo conflito com indígenas Nawa
Eu descobri que aqui era um parque depois de 11 anos de criação dele. É como se tivessem vendido minha casa para outro dono e eu só ficar sabendo 11 anos depois que a casa que construí e morei não é mais minha porque foi vendida sem eu saber - Railson (Cacique do povo Nawa)

O parque Nacional da Serra do Divisor foi criado em 1989, em um contexto de definição de áreas relevantes de florestas para o país. Nesse sentido, a característica do parque foi definida como de "proteção integral". Isso quer dizer que não deveria haver nenhuma interferência humana nas áreas onde fosse definida como Parque Nacional. O indígenas Nawa foram notificados em 2000 que deveriam ser retirados de dentro do Parque e alocados em um assentamento definido pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). A retirada forçada do povo Nawa de seu território ancestral desconsiderava a presença indígena em muitos desses espaços de proteção.
Em diálogo com a liderança indígena da T.I. Nawa, o cacique aponta que a definição da área do Parque Nacional da Serra do Divisor foi uma decisão de gabinete, isto é, feito sem considerar as moradias daqueles que sempre cuidaram e protegeram as florestas: os povos indígenas. Por um lado estava o Estado com uma visão fechada e simplista de proteção das florestas sem a participação humana, com o objetivo de garantir as riquezas nacionais e a biodiversidade e, por outro, estavam os povos indígenas alertando que onde há indígenas há proteção das florestas e a necessidade de valorização das culturas ancestrais da sociociodiversidade humana nos territórios.
O histórico da falta de consulta ao povo Nawa sobre a criação do Parque Nacional manteve-se durante anos. Mesmo após o reconhecimento do direito da consulta livre, prévia e informada a partir da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), os parentes Nawa não foram acessados e continuou o conflito para que os indígenas pudessem permanecer nas suas moradas. Sem a definição de dialogo, os Nawa tomaram a primeira decisão: se juntaram e derrubaram as placas que demarcava suas moradas como parque.

A liderança feminina Lucila Nawa, uma das principais lideranças do início da luta do povo, conta sobre a relação com os gestores do parque. "Nós nos reunimos, todo mundo, e ai fomos tirar as placas que o ICMBio - que na época era IBAMA - tinha colocado dizendo que em toda aquela área era Parque Nacional. E ai nós derrubamos todas as placas e jogamos todas n’água. Onde nós víamos que nos pertencia, nós tirava. Onde não pertencia a nós, nós deixava, que era só nossa área onde nós víamos que nos pertencia."
A liderança comenta que a colocação das placas tratou os indígenas como animais. "Os nossos pais disseram que não iam aceitar aquilo, porque não teve nenhum tipo de consulta [do ICMBio]. Eles tinham nós como uns porcos e taparam o chiqueiro".
Em estudo publicado em 2016 e atualizado em 2018, a antropóloga Fany Ricardo e Silvia Futada, do Instituto Socioambiental (ISA), destaca 61 casos - de um total de 77 - de Terras Indígenas em sobreposição às áreas de proteção ambiental do Estado. Ao todo, isso corresponde a 11,4 milhões de hectares, e a 9,7% da extensão total das Terras Indígenas no território nacional. A grande maioria dos casos apontado no estudo encontra-se na Amazônia Legal, local onde está situado a Terra Indígena Nawa, em Mâncio Lima, no Acre.

Apesar do Parque ter sido criado em cima de suas casas, os Nawa não se posicionam contrários ao parque. Pelo contrário, os indígenas apoiam a criação do parque, mas defendem também que todo o processo tem de ser em diálogo com o povo, ouvindo os moradores e entendendo as especificidades, a cultura e a história daqueles que construíram gerações em cima de uma terra ancestral. "Porque nós não chegamos numa a ser contra o Parque. Nós só queria que eles nos respeitasse e que a gente tivesse também a nossa terra".
O povo Nawa, pressionando para ser escutado, chegou a prender os gestores do PNSD na terra indígena. A estratégia era chamar a atenção das autoridades nacionais para o reconhecimento do povo e a luta pelo território demarcado. A ação deu certo e nos anos seguintes os Nawa tiveram o processo da terra iniciado. Vários acordos foram mantidos até os gestores do Parque tornarem os indígenas como aliados na defesa e cuidado do Parque. Um plano de gestão territorial participativa foi implantada e as lideranças passaram a ser consultadas. Entretanto a luta do povo não acabou e novas ameaças apareceram para afetar mais ainda o território e a cultura do povo que buscava se reestabelecer após anos de violências.

"Nós somos contra as leis que fazem escondidos": a estrada que corta o corpo-território Nawa
Em 2020, as lideranças tomaram conhecimento de mais uma ameaça ao seu território. Após anos de diálogo com o ICMBio e o reconhecimento do direito do povo Nawa poder viver e usar o território do parque para atividades produtivas coletivas e de sobrevivência, agora foi a vez desse diálogo de anos ser jogado totalmente no lixo com a retomada da pauta de construção de uma estrada que liga Cruzeiro do Sul (Acre - Brasil) a (Pucallpa - Ucayali - Peru).
A ligação terrestre, que foi pensada em 1981, não vingou nos anos seguintes. A estrada projetada seria a continuidade da BR-364 e, segundo o discurso dos idealizadores da proposta, uma forma de "tirar o acre e a região do Vale do Juruá do isolamento".
Em Dossiê publicado em 2021, o Instituto Fronteiras, no Acre, alerta para a implementação da criação da estrada Cruzeiro do Sul/Pucallpa, após ela ser retomada pelos deputados Marcio Bittar (MDB) e Mara Rocha (PSDB), ambos deputados federais de aliança do governo do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. O dossiê descreve com base em vários dados institucionais que o projeto da estrada ligando os dois países vem sendo amplamente discutido pelo governo durante todos esses anos, porem "também devem ser levantados aspectos econômicos como rentabilidade do projeto; aspectos sociais, em relação a aceitação das populações indígenas e aspectos ambientais". Quando o documento fala de populações indígenas, ai está previsto o impacto ao povo Nawa.

O povo, em 2020, tomando ciência da proposta, rapidamente se posicionou contra a falta de diálogo para construção do grande empreendimento público. De acordo com o Dossiê do Instituto Fronteiras, o Parque Nacional da Serra do Divisor, local onde habita os Nawa, já previa a construção da estrada. Entretanto, os deputados da bancada ruralista do Acre criaram um Projeto de Lei (PL 6024/2019) para extinguir o parque e flexibilizar as leis ambientes. Essa ação gerou preocupação das lideranças Nawa, que viam a proposta dos deputados ruralistas acabar com anos de tentativa de buscar uma resolução de conflito envolvendo a Terra Indígena em sobreposição. "Nós nunca fomos contra o parque e sempre quisemos diálogo para todas as ações que nos afetam. Essa estrada comete o mesmo erro do passado, quando criaram o Parque. Querem nos matar quando atacam nosso território", declara a liderança feminina, Lucila Nawa.
De acordo com o documento publicado pelo povo Nawa, que foi anexado em uma representação coletiva PR-AC-00016712/2020 pelo Ministério Público Federal - AC, a extinção do parque mostra mais uma violação ao território indígena quando prevê a extinção de uma das maiores áreas de proteção ambiental e biodiversidade. Segundo os Nawa, a proposta de extinção do parque para criar a estrada pode acarretar em: (1) aumentos dos índices de desmatamento desenfreado; (2) acentua a grilagem e loteamento de terras em uma região protegida e afeta diretamente a maior biodiversidade de aves, anfíbios e mamíferos pela qual o Acre é reconhecido; (3) aumenta, consideravelmente, os impactos sociais, com exploração sexual, disseminação de drogas e IST’s; (4) acentuará, a partir da permissão de ocupação humana, conflitos de recursos e contaminação de rios e recursos pesqueiros, e (5) tencionará as populações nativas com a possibilidade de invasões de Terras Indígenas, acarretando conflitos ambientais.
"Eu queria o respeito do presidente e de quem faz essas Leis, dessas pessoas que fazem as coisas escondidas dos povos indígenas. Quando a gente vai ver, já está em cima de nós e as vezes não temos tempos nem de se defender", criticou a liderança feminina Nawa ao tratar da falta da consulta livre, prévia e informada aos povos indígenas, conforme Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
E foi justamente em reação à falta de consulta ao povo que as lideranças se articularam dentro do território, organizaram o povo e decidiram conduzir o próprio processo de demarcação da TI. A autodemarcação, como foi chamada pelo povo, correu em paralelo à demarcação oficial da Terra Indígena, que já se arrasta por mais de 21 anos sem resolução. Pequenos avanços foram realizados e cada vez mais os entraves ao reconhecimento originário ao território habitado pelos Nawa se tornam barreiras para que os indígenas possam cuidar e usufruir do território ancestral.
Autodemarcação como estratégica de manter vidas e floresta em pé

No dia 07 de junho de 2021, cansados de esperar pela política falha do governo brasileiro, os Nawa se organizaram em barcos coletivos com 30 indígenas e às 7h21 da manhã se deslocaram para o limite da Terra Indígena. O objetivo era realizar o sonho das lideranças: demarcar a terra Nawa com as próprias mãos. A autodemarcação também tinha a intenção de proteção do território contra as ameaças de invasão de caçadores ilegais, madeireiros, pesca ilegal, desmatamento, narcotráfico, etc. Com a falha da política indigenista oficial, que a cada ano reduz mais ainda as demarcações das terras indígenas, inversamente proporcional às mortes indígenas, que aumentam a cada ano com os conflitos territoriais, demarcar a terra com as próprias mãos foi a solução para os Nawa garantirem aquilo pelo qual mais lutam: a vida.
No atual governo do presidente que disse que não iria demarcar "nenhum centímetro de Terra Indígena", o seu objetivo tem sido mantido. No total, Bolsonaro não demarcou nenhuma terra indígena em dois anos de mandato. Em contra partida, de acordo com dados do Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil – dados de 2020, do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) foram registrados no ano passado 182 assassinatos, número recorde desde que o levantamento começou a ser divulgado, em 1995. Os dados do CIMI escancaram o que a política antidemarcação causa com os povos indígenas: morte! E é fugindo da morte física e da morte da cultura (simbólica), que os Nawa arregaçaram as mangas e criaram sua própria estratégia de proteção do território: a autodemarcação. Proteger a terra é proteger a cultura viva do povo, que tem relação direta com a manutenção da floresta em pé e do território protegido de invasões e desmatamento

Para realizar a autodemarcação foram dois dias de viagem até a fronteira pelos igarapés Novo Recreio, Zumira, Furquilha, Tapada e Boa Vista, este último já no divisor da terra. Em cada barco estavam três pessoas. Estavam presentes 03 agentes de saúde, 03 professores, o cacique e o vice cacique, 02 mateiros (guia), 05 crianças, 06 anciões e 10 fiscais da Terra Indígena Nawa (incluindo os Agentes Agroflorestais). As crianças foram incluídas para que elas aprendessem na prática a luta do povo e para fortalecer o senso de identidade com o território no qual habitam e do qual sobrevivem. De acordo com as lideranças, a autodemarcação é pedagógica e ensina o povo a garantir a floresta em pé para garantir, como consequência, a vida cultural da população nativa.
As lideranças Nawa se posicionaram explicando os motivos dos indígenas realizarem sua própria autodemarcação. "Se os órgãos que executam a política indigenista oficial do Estado não garantem o monitoramento da Terra Indígena, nós, povos indígenas, temos a obrigação de cuidar da nossa casa, da nossa mãe terra e do nosso território, local sagrado morada dos espíritos da mata, das malocas dos nossos antigos e dos nossos ancestrais que estão enterrados no território no qual executamos fiscalização" destacou Railson, cacique do povo Nawa.
Ao todo foram seis dias de atividades dentro da Terra Indígena – entre os dias 7 e 13 de junho de 2021 –, realizando o trabalho de “picada” – a trilha dentro da mata para marcar o limite do território Nawa. Durante os dias na mata, os indígenas reforçaram a cultura do povo com práticas de cantos e danças dos seus ancestrais.
As várias ameaças à terra indígena Nawa criou uma carapaça de jabuti que a cada ano se fortalece. E a cada ofensiva para derrubar a floresta fortalece mais ainda as lideranças que objetivam garantir a sobrevivência do povo e das futuras gerações. Garantir a vida das próximas gerações e a continuidade dos recursos foi outro motivo que levou o povo a buscar a autodemarcação como saída para a ausência das políticas oficiais.

No passado o povo Nawa foi ostensivamente afetado pela modelo econômico extrativista da borracha, que além de dizimar vários indígenas do povo e transformar os que sobreviveram em trabalhadores compulsórios da borracha, quase matou a cultura de um dos principais povos do Vale do Juruá. Entretanto, mesmo com o discurso de "extintos", os Nawa deram a volta por cima e mostram que continuam vivos na defesa da cultura, do território e da vida.
Passados os anos, o Estado, que no passado incentivou a perseguição aos indígenas quando favoreceu a criação dos seringais, continua demonstrando sua face perversa no reconhecimento da diferença étnicas e culturais de um país tão diverso como o Brasil.
Os Nawa enfrentaram à caça aos indígenas, o trabalho compulsório na seringa, a criação de um parque que não reconhecia o povo como indígena e enfrenta a construção de uma estrada que recusa o diálogo com o povo. Diariamente os Nawa enfrentam invasão do seu território, a falta de acesso a políticas sociais pela falta de território demarcado, e veem seu território ser usado como rota de narcotráfico. Assim como no passado a vida dos indígenas estavam em jogo, hoje mais que nunca a vida indígena parece estar sendo o alvo da ausência de atenção pelo apoio ao bem-viver e viver bem Nawa. Os indígenas, sobrevivem na floresta tirando seu sustento da mata e é dela que também tiram a força para continuar a defender a natureza, os espíritos e os seres sagrados que nela habitam.


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